quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Città Eterna

"Sentes que um tempo acabou
Primavera de flor adormecida,
Qualquer coisa que não volta que voou,
Que foi um rio, um ar, na tua vida.

E levas em ti guardado
O choro de uma balada
(...)
No momento da partida
Segredos desta cidade
Levo comigo p’rá vida.

Sabes que o desenho do adeus
É fogo que nos queima devagar,
E no lento cerrar dos olhos teus
Fica a esperança de um dia aqui voltar."

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

tanto mia, troppo nostra.

"It's not over, 'till it's over. I wanna stay here forever"

Acabei de acertar os últimos pormenores do trabalho de Scienze Semiotiche. Sinto-me mais leve. Independentemente do resultado, já está feito; com a "apresentação" preocupo-me depois. Agora é tempo de estudar Comunicazione Pubblica, que, devo dizer, é talvez a cadeira mais preocupante. O exame é oral e, de toda a matéria, nem sabemos exactamente o que estudar.
No entanto, neste momento, as mil e uma forma de comunicações - sejam elas de mercado, empresariais, institucionais, entre tantas outras - não pensam entrar já na minha cabeça. Primeiro, quero respirar. Quero absorver o frio romano que entra pela porta e me bate nas costas. Quero descansar dentro destas quatro paredes a que chamo e sinto como casa. Agora, é tempo de parar, mesmo que, para minha desolação, eu não veja o tempo parado.
A partir de hoje, resta-me exactamente um mês na Cidade Eterna - decido chama-la assim porque assim a sinto. No peito, um aperto começa a crescer, ainda pequenino, como se fosse ele próprio um nó no meu cabelo. A diferença é que este não se desfaz e faz doer. Na garganta, já se dissipou, ao contrário desse nó, o sabor doce do chocolate misturado com o do café - hábito terrivelmente bom a que me habituei depois do almoço. Afinal, já todos dizem, o que é bom acaba depressa. E na cabeça - aquela que parece o motor incansável de um carro velho, ruidoso , violentamente ensurdecedor - surgem os medos e as inseguranças que eu não quero explicar. Quem precisa de o saber, já o sabe. Tão bem ou melhor do que eu. E, se for preciso, podemos , literalmente, gritá-lo pelas ruas. Ninguém percebe, só nós. E não há nada melhor do que os segredos partilhados em risos, lágrimas, loucuras e depressões. É por isso que não quero ir embora. Aqui, com elas, posso ser quem eu quiser, quando quiser, como quiser.
Agora, sou daquelas pessoas a quem custa largar o que de tão seu já considera. É como se alguém me pedisse aquele último resto do meu café ou o último pedacinho do chocolate que tão bem me está a saber. É meu, demasiado meu. Não mo tirem, por favor!
É que afinal ninguém quer ficar de mãos vazias, não depois de ter segurado o mundo...



Porque Roma é tão minha, é demasiado nossa.


sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Ritorno

01.12.2010, Aeroporto de Madrid

«And I don't want the world to see me, 'cause I don't think that they'd understand...»


Eram 3h da manhã. Tinha, finalmente, parado de chover, ainda que se sentisse no ar toda a humidade provocada por um dia de chuva incessante.
Caminhei sozinha aquela rua que já é tão minha. Hoje subia-a, ao contrário do primeiro dia em que a passeei, ao ir de encontro à casa que viria a ser nossa. Hoje, ao contrário de há 3 meses atrás, não me fazia acompanhar do riso e das vozes delas - já tão indispensáveis aos meus dias. Eram 3h da manhã e o barulho solitário das rodas da mala na pedra do chão era demasiado estrondoso aos meus ouvidos.
Quis voltar para trás. Quis recusar-me a caminha sozinha aquela rua que é nossa - nossa nas tantas noites em que regressámos de N2, ou sempre que queremos comprar shampoo, ou levantar dinheiro, ou até mesmo procurar uma esquadra; ou que é nossa por nada, porque passamos ali só por passar. Quis abafar aquele ruído insuportável da despedida com as gargalhadas delas - "Despedida? São só 5 dias, Ana. E quando for a sério?" - Quis calar as vozes que gritavam ao meu coração. Queria, no fundo, plantar algum entusiasmo no meu espírito. E, no entanto, a minha cabeça ignorou todos os meus quereres - eu continuei em frente, sozinha, sem o som dos seus risos, sem o tom das suas brincadeiras. Segui com aqueles gritos que me esvaziavam de sanidade e não me deixavam estar feliz.
Voltar a Portugal. E se ao menos alguém soubesse o quanto o desejei e o quanto, às 3h da manhã naquela rua, o repulsei!
"Só vocês é que vão entender". Só vocês, de quem me habituei a gostar tanto - e vocês sabem-no, ainda que tantas vezes eu diga o contrário - é que podem efectivamente entender. Vocês, mais ninguém. E eu não quero entrar em explicações aos demais, quando para vocês não preciso de palavras.
Digam-me só que eu estou aí já outra vez e que estou a exagerar - eu sei que estou. Da mesma forma que sei que, mal chegue a Portugal e veja o sorriso daqueles de quem tanto gosto e tenho saudades, ou sinta o frio do Porto, o entusiasmo crescerá espontaneamente em mim. E eu vou estar feliz.
No entanto, já me faz falta respirar o ar de Roma, o sabor do sumo de laranja misturado com o cheiro da pasta da cantina e o som dos risos delas...



P.S.: Dois dias depois de ter chegado, posso dizer que nem tudo foi como imaginei - umas coisas melhores, outras piores. Mas estou bem e feliz. Ainda que o pensamento voe constantemente até à Cidade Eterna.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010



(...)
This is the closest to heaven that I'll ever be
And I don't wanna go home right now.
And all I can taste is this moment,
And all I can breathe is this life
'Cause sooner or later it's over
And I just don't wanna miss it tonight.

And I don't want the world to see me
'Cause I don't think that they'd understand...

Erasmus Roma *

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Piove tantissimo!

Hoje é daqueles dias em que devia ser proibido sair de casa. As ruas estão inundadas. As minhas calças, lavadas e passadas a ferro ontem à noite, estão salpicadas de água suja até ao joelho, em consequência do cuidado extremo que os condutores italianos têm ao andar na estrada. Onde param os dias de sol e calor em Roma, aqueles que eu senti ainda ontem, quando cheguei cá de mochila às costas, com duas malas atrás de mim, mais outras 11 pertencentes às três criaturas que pouco conhecia?
É Novembro. A Cidade Eterna vê-se debaixo de uma chuva intensa e trovões que deixam o Fuori - ou Monsenhor, ou Dark, ou Black, como queiram - a tremer até à cauda. É Novembro. Como "o tempo morre ainda antes de nascer", já escrevia a Raquel no seu facebook, citando a Ana Moura.
A verdade é que por aqui os dias têm passado muito rápido e, qual maratona, parece que correm cada vez mais. Mesmo que as saudades de casa apertem, entristece-me saber que a minha vida aqui tem um prazo de validade, prazo esse, no fundo, prestes a expirar.
Não me posso alongar mais, já estou a ficar atrasada para a minha aula de italiano. Sim, o curso que ainda ontem começou e cujo teste estarei a fazer daqui a um mês (que é como quem diz amanhã).


(É verdade, a Constituição da Comunidade Portuguesa foi finalmente oficializada no dia 8 de Novembro. Somos uma Comunidade a sério! - não que já não o fôssemos)